O «oportunista ou o rolha» político. Ele pensa que não se dá conta, … mas dá! – por Carlos Pereira Martins

 

O «oportunista ou o rolha» político. Ele pensa que não se dá conta, … mas dá!

por Carlos Pereira Martins

 

Há pessoas que não mudam propriamente de ideias; mudam é a maneira como apresentam as ideias, conforme sopra o vento. Ontem falavam com convicção da esquerda, hoje fazem questão de declarar que «não são de esquerda», amanhã talvez descubram que sempre foram, no fim de contas, moderados, independentes e, sobretudo, sensatos.

O segredo está menos naquilo que pensam do que naquilo que dizem que pensam.

Quando a esquerda está politicamente forte, aproximam-se dela sem grande cerimónia. Quando a direita cresce, começam a introduzir prudentemente algumas reservas: «Eu sou de esquerda, mas…». E esse mas é uma pequena maravilha da sobrevivência política: permite conservar a antiga companhia sem desagradar demasiado à nova.

As principais técnicas do «descomprometido»

– Nunca defender inteiramente ninguém.
A crítica permanente é uma excelente capa de neutralidade. Critica-se a direita, mas também a esquerda; critica-se o Governo, mas também a oposição; critica-se tudo um pouco e, assim, nunca se fica inteiramente comprometido com coisa alguma.

–  Substituir convicções por bom senso.
Em vez de dizer «sou contra esta política», diz-se:

«Temos de ser pragmáticos.»
«É preciso olhar para os dois lados.»
«Não podemos ter posições dogmáticas.»

São frases respeitáveis e, frequentemente, perfeitamente legítimas. O problema começa quando o «pragmatismo» serve apenas para não tomar posição quando tomar posição tem um custo.

–  Usar o famoso «eu sempre fui crítico».
É uma espécie de seguro político retroactivo. Quando uma política fracassa, aparece imediatamente a declaração: «Eu sempre tive algumas reservas». E quando é um sucesso: «Eu sempre reconheci os seus aspectos positivos.»

Assim, a memória torna-se extraordinariamente elástica.

– Elogiar pessoas, mas evitar comprometer-se com projectos.
«Gosto muito do fulano, é uma pessoa séria.»
«Reconheço o mérito daquela pessoa.»
«Há coisas muito boas naquele partido.»

É uma forma elegante de aproximar-se sem aderir. A simpatia pessoal substitui a concordância política.

–  Dizer «não sou de extremos».
É talvez uma das frases mais úteis para quem pretende navegar entre margens. O problema é que «extremo» passou a ser, muitas vezes, tudo aquilo que obriga a uma posição clara.

Pode-se, assim, ser de esquerda sem querer parecer demasiado de esquerda; admirar a direita sem querer parecer de direita; e conservar uma respeitável aparência de independência.

–  Escolher cuidadosamente os temas.
Fala-se muito daquilo em que há consenso e pouco daquilo que divide. Direitos sociais, democracia, cultura, liberdade e solidariedade são fáceis de defender. Já questões que impliquem escolhas concretas — impostos, imigração, segurança, despesa pública, mercado de trabalho, propriedade, redistribuição — exigem mais coragem.

O «rolha» prefere geralmente a superfície tranquila.

E há uma frase particularmente reveladora

«Eu não sou de esquerda nem de direita; sou pela justiça e pelo que é certo.»

Parece uma frase superior às ideologias. Às vezes é genuína. Mas também pode ser uma maneira extremamente conveniente de não pagar o preço de nenhuma escolha política.

Porque, na realidade, quando se decide sobre impostos, salários, pensões, habitação, saúde, educação, imigração ou distribuição da riqueza, há quase sempre escolhas de valores. E essas escolhas têm consequências políticas.

O verdadeiro oportunista

O oportunista não é necessariamente aquele que muda de ideias. Mudar de ideias pode ser uma virtude. Uma pessoa pode reconhecer que estava errada, aprender, evoluir e mudar de posição.

O oportunista é outra coisa: é aquele que muda sobretudo a sua linguagem, o seu grau de convicção e a sua proximidade conforme muda a relação de forças.

Não abandona necessariamente os amigos; apenas deixa de aparecer tanto com eles quando percebe que podem tornar-se inconvenientes.

E é aqui que entra magnificamente a «rolha»: não tem destino próprio; tem flutuabilidade.

Mas há uma distinção importante

Não devemos confundir esta atitude com independência de espírito.

Uma pessoa verdadeiramente independente pode ter afinidades com a esquerda e, simultaneamente, discordar dela em muitas matérias. Pode reconhecer méritos à direita sem se tornar de direita. Pode criticar o seu próprio campo político com uma severidade maior do que a utilizada para criticar os adversários.

Isso não é oportunismo. É liberdade intelectual.

O que denuncia o «rolha» é outra coisa: a ausência de risco. Quando a esquerda está em ascensão, está por perto; quando a direita avança, começa a afastar-se alguns centímetros; se a direita chegar ao poder, talvez descubra que nunca foi verdadeiramente de esquerda; e, se amanhã os ventos mudarem outra vez, provavelmente explicará que sempre tivera «uma visão muito independente».

No fundo, não muda de opinião: muda de abrigo.

E talvez a melhor definição seja esta:

O homem de convicções pode mudar de ideias. O oportunista muda de posição. O rolha não muda de posição: deixa-se levar pela corrente.

 

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